DANILO SANS
Somente o 1º Distrito Policial (DP) de Mogi das Cruzes registrou 17 boletins de ocorrência referentes a pessoas desaparecidas na Cidade no período de dezembro do ano passado e janeiro de 2012, sendo que em pelo menos sete casos houve o reaparecimento em poucos dias. A situação alarmante é reforçada pelo número de pessoas que tem procurado, quase semanalmente, O Diário em busca de entes e amigos.
A grande maioria dos desaparecidos registrados no período é de pessoas do sexo masculino, com 12 ocorrências relacionadas. Os casos são os mais diversos e vão desde um interno que pulou o muro de uma casa de acolhimento e não retornou mais, um filho que partiu para o litoral sem avisar - mas voltou quatro dias depois - até um homem com histórico de problemas com álcool e drogas, que saiu para trabalhar num domingo à noite e não retornou mais.
Mesmo sem precisar números, o delegado Boanerges Braz de Mello, do Distrito Central, diz que a maior parte dos casos se refere a pessoas que saíram de casa premeditadamente e retornaram alguns dias depois do registro feito na Polícia. Mesmo com a resolução de boa parte dos casos em poucos dias, há aqueles em que a pessoa procurada não retorna ou é encontrada morta, como aconteceu com duas adolescentes retratadas há poucos dias. No centro da questão está a família, que procura – muitas vezes às cegas – por qualquer sinal que indique o paradeiro do parente em questão.
A 4ª Delegacia de Investigações Sobre Pessoas Desaparecidas, ligada ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), da Polícia Civil, que concentra os números de todo o Estado, aponta em 2011 foram registrados 21 mil casos de desaparecimentos, sendo que pelo menos 19 mil deles foram solucionados. Ainda de acordo com o órgão, normalmente se trata de pessoas que saem de casa, sendo que uma parcela significativa se deve ainda aos adolescentes, que fogem por conta de um relacionamento.
Ainda de acordo com a Delegacia, o número elevado de registros se deve à maior facilidade em se oficializar a ocorrência. E isso ocorre não porque o número de casos seja maior, mas a facilidade de se fazer a comunicação até mesmo pela internet aumentou bastante o número de registros. Até 2009, essa média girava em torno de 18 mil casos por ano.
Já no Distrito Central, um dos casos, datado de 13 de janeiro, faz referência a uma garota de 15 anos, que deixou a família em estado de alerta depois de sair sem avisar, deixando apenas um recado para a mãe, com a qual teria tido uma discussão horas antes.
O pai da garota (que prefere não se identificar) faz um alerta para o acesso livre de crianças e adolescentes à internet. "Só depois que minha filha fugiu para encontrar uma amiga que conheceu pelo MSN é que pude perceber como é importante estar no controle do acesso", aponta.
"É uma situação que eu não desejo para ninguém. No desespero, a gente perde totalmente a noção de tempo, não vê a hora passar. Foi um desespero. Minha filha estava sem dinheiro, sem ter o que comer e saiu sem deixar pistas. Uma vez, a gente aguentou, mas na segunda, não sabemos se dá jeito", desabafa.
A fuga aconteceu por volta das 10 horas. No dia, a única pista deixada foi um bilhete: "Ela pedia desculpas pela discussão, disse que me amava muito e que ficaria bem. Quando a gente vê uma coisa dessas, vem sempre o pior na cabeça. Cheguei a pensar que ela tinha se matado", conta o pai.
Desesperada, a família começou a procurar pela garota na casa das amigas, até que, por coincidência, descobriram alguém que a tinha visto entrando num ônibus com destino a Mogi. Neste meio tempo, a família registrou o Boletim de Ocorrência e, já na Cidade, procurou algumas informações com a Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Mas o paradeiro só foi confirmado após uma prima da garota conseguir o histórico de conversas no bate-papo. "Foi quando entramos em contato e ficamos sabendo que ela estava no Itaim Paulista", diz.
"Apesar de ter ficado apenas horas fora, choramos muito no retorno dela. Mãe e filha se reconciliaram e tivemos uma longa e intensa conversa entre os três para mostrar para a minha filha que não é assim que se resolve as coisas. Uma discussão corriqueira com a mãe é algo que acontece em qualquer família", completa.
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